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Como fazíamos sem

24 Comentários

14/03/2014 | Por: | Postado em: Blog, Dicas, Livros

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Cada vez mais estamos com nossa vida atrelada a equipamentos eletrônicos. É só ter uma queda de energia qualquer e as pessoas já se desesperam. Você sabe como vivia sem celular ou computador, pois provavelmente já viveu sem essas coisas. Mas e sem máquina de lavar? E sem luz elétrica? E como o ser humano vivia sem escova de dentes? E sem chuveiro? E sem palito de fósforo? E sem talheres? E sem ventilador? Falar um pouco da vida e dos hábitos de antigamente é a proposta do livrinho “Como fazíamos sem”, da jornalista Bárbara Soalheiro (editora Panda Books). O livro ganhou o prêmio Jabuti em 2007, então imagino (ou espero) que alguém tenha checado as informações que ela apurou…rs.

O livro é, em tese, infantojuvenil. Mas adultos curiosos, como eu, certamente vão gostar. A história de coisas corriqueiras nos ajuda a entender melhor o mundo e as pessoas. E é uma pena que, em nossa cultura de correria maluca em direção a lugar nenhum, isso esteja se perdendo.

São historinhas curtas sobre como fazíamos sem coisas que usamos no dia a dia, como geladeira, fósforos, elevador, telefone, etc. Ao ler sobre como era a vida das pessoas naqueles tempos, você se dá conta do quanto as coisas que fazem parte do nosso dia a dia interferem em nossa vida. Você certamente vai valorizar mais o que tem e talvez retome alguns hábitos passados que eram bem mais saudáveis.

Não sei até que ponto o “desenvolvimento” que tivemos da Revolução Industrial até aqui (se você reparar, no livro quase tudo o que existe e que faz nossa vida ser como ela é, foi criado depois da Revolução Industrial) pode realmente ser chamado de desenvolvimento. No entanto, é inegável que algumas comodidades que hoje fazem parte do nosso cotidiano mudaram a vida da sociedade. Nos deixaram mais preguiçosos também, sem dúvida.

Eu me lembro de quando a geladeira da minha avó estragou. Ela ficou indignada de pagar pelo conserto e decidiu esperar o início do mês para consertá-la. Disse: “eu vivi muitos anos da minha vida sem geladeira, não dependo dessas coisas.” Uma semana depois, lá estava ela justificando o fato de ter ligado para o técnico: “Não sei como vivi tantos anos sem geladeira!” Minha mãe conta que as pessoas compravam gelo do “geleiro”. Não sei exatamente como esse cidadão fazia gelo no Mato Grosso…rs. O livro só fala de gelo nos locais em que havia neve. Mas minha mãe também conta que na fazenda, quando se casou com meu pai, eles conservavam almôndegas em latões com banha. Eca! Pior eram os doces, que emboloravam e minha tia (também na fazenda) tirava o mofo da parte superior e servia o restante… hoje sabemos que isso é perigoso, pois as toxinas dos fungos penetram no interior dos alimentos, mesmo onde eles não são mais visíveis. Então, não adianta só tirar a parte embolorada. Mofou, tem que jogar o troço fora, mesmo. Bendita geladeira!

Acredito que seja extremamente importante saber como as coisas eram feitas e como era o comportamento e pensamento das pessoas antigamente. Assim, a gente evita cometer os mesmos erros que quem veio antes da gente cometeu. E também evita desconsiderar os acertos… aliás, muito do que está errado no mundo hoje em dia vem justamente de termos desprezado as coisas boas que eram feitas no passado…

Algo importante: mesmo em livros mais curtinhos, você tem que pensar, meditar sobre cada coisa que lê. Livro não é como TV, que simplesmente te empurra goela abaixo o que você está assistindo. O legal do livro é conversar com ele, questionar, pensar além do que está escrito. Por isso às vezes viajo nesses meus comentários sobre os livros que leio e indico (ou os que não indico, também…rs), porque o livro nunca é só o que está escrito.

Uma coisa que não é muito explorada no livro, mas que meu cérebro acaba explorando ao ler um parágrafo que seja, é a ignorância causada pelo pensamento religioso. É bom ver qual o tipo de burrice causado pelo uso do nome de Deus sem inteligência.

“Talheres eram tão caros – e, por isso mesmo, valiosos – que apareciam nos testamentos de pessoas ricas. E garfos, que hoje nos parecem tão inofensivos, chegavam a ser malvistos pela Igreja. “Deus, em sua sabedoria, deu ao homem garfos naturais – seus dedos. Assim, é um insulto a Ele substituí-los por garfos de metal”, escreveu um padre italiano no século XI, ao ver que a esposa do governante de Veneza tinha o “estranho” hábito de não usar as mãos durante as refeições.”

Ou seja, se dependesse da igreja católica, estaríamos até hoje comendo com as mãos…

No entanto, as recomendações de Deus quanto a higiene e alimentação mantiveram Seu povo muito diferente dos outros povos da terra – e bem mais saudável. Isso é a fé usada com inteligência. Geralmente nos leva a contrariar o senso comum da época. Até pouquíssimo tempo, tomar banho, por exemplo, era malvisto pela maioria das culturas.

“(…) fugir das banheiras era recomendado como uma medida de higiene. Outra crença dizia que a água amolecia o organismo e impedia o crescimento. Assim, crianças eram frequentemente impedidas de entrar no banho até certa idade. Mas nem adianta usar essas desculpas para driblar os gritos da sua mãe mandando você entrar no chuveiro. Hoje, sabemos que essas crenças não têm lógica alguma. Aliás, a equação funciona ao contrário: banhos ajudam a evitar doenças. A falta deles é apontada, por exemplo, como o principal motivo para que a peste negra tenha se alastrado na Europa no século XIV. Na época, como ninguém se dava conta dessa obviedade, a culpa da epidemia, que matou 25 milhões de pessoas (um quarto da população europeia), recaiu sobre leprosos e judeus. No caso dos judeus, há quem diga que a recomendação religiosa de tomar banho pelo menos uma vez por semana e lavar as mãos antes das refeições mantinha-os menos sujeitos à peste. Como não eram contaminados, passaram a ser vistos como responsáveis pela disseminação e acabaram sendo queimados durante a Inquisição. Ou seja, eles escaparam da peste, mas não da morte.”

Mais uma vez, a ignorância religiosa em ação.

Algo que achei importante também é ver como uma pequena mudança pode transformar vidas:

“Quando a luz elétrica se espalhou pelo país, os acendedores de lampião não foram os únicos a desaparecer. Também sumiram o fogão a lenha, o ferro a brasa, as lavadeiras nos chafarizes, o banho frio… A vida de todo mundo foi completamente transformada pela invenção do americano Thomas Edison. Morar, comer e cuidar da higiene se tornaram tarefas muito mais confortáveis.”

Thomas Edison inventou a lâmpada, não a energia elétrica. A eletricidade foi descoberta uns mil e duzentos anos antes de Edison nascer, por Tales de Mileto. E já era usada antes de Thomas Edison pensar em vir ao mundo, tanto que ele mesmo inventou algumas máquinas elétricas antes de inventar a lâmpada incandescente. Porém, as redes elétricas não existiam no Brasil antes da lâmpada vir para cá. Elas foram instaladas em massa com a intenção de facilitar a iluminação, mas possibilitaram a instalação de eletrodomésticos e de uma porção de quinquilharias eletrônicas que a gente tem em casa hoje.

Uma das coisas que acho mais interessantes ao analisar um livro desses é que a ideia que se tem é como se tudo o que temos e fazemos hoje fosse o ápice da evolução da espécie. Algo como “olha como éramos primitivos antigamente. Ainda bem que finalmente descobrimos a forma certa de se fazer as coisas!” No entanto, se você analisar direitinho, vai perceber que naquelas épocas passadas, as pessoas também acreditavam que haviam descoberto a forma certa de se fazer as coisas! Ou seja, muito provavelmente ainda sejamos medonhamente primitivos em muitas coisas sem sequer nos darmos conta.

Isso faz com que você comece a olhar ao seu redor de outra forma. Será que a maneira de nossa sociedade entender o mundo, de agir, de fazer as coisas, é realmente a melhor? Será que as lutas em que as pessoas estão tão engajadas, tentando ajustar nossa cultura a uma nova forma de entender os relacionamentos, são, realmente, tão certas e justas assim?

O que a História diria de nossa época, caso o mundo sobrevivesse para contar a nossa história?

 

 

PS: Os extras desse post! :D

 

PS2 : IMPORTANTE: Tenho visto vários comentários de leitoras impacientes porque seus comentários não aparecem quando elas postam. O que está acontecendo é o seguinte: por algum motivo (bug), o wordpress está enviando automaticamente alguns comentários para a pasta de SPAM. Nesses casos, quem comenta não vê seu comentário na página e as moderadoras demoram para conseguir liberar todo o grande volume de comentários. Por isso, eles não estão aparecendo. Mas quando a gente libera, eles aparecem, então não precisa mandar várias vezes. Estamos ligadas nisso e acredito que em breve esse problema será resolvido. :-)

 

Vanessa Lampert

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Vanessa Lampert

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Escritora e personal trainer de neurônios sedentários, em processo de formação de um exército de leitores inteligentes que saibam combinar senso crítico e bons olhos.


24 respostas para “Como fazíamos sem”

  1. Gabriela (Sorocaba) disse:

    Oi Vanessa,

    Interessante, muito curioso mesmo saber como as pessoas se viravam no seu cotidiano. Fiquei curiosa de saber como faziam pra escovar os dentes, Afff sem creme dental ainda, eca! Rsrs
    Sabe que tem um programa infantil da (Disney XD) que transporta os personagens de hj em dia para a época passada. A ideia é mostrar pras crianças quais eram os divertimentos da época, como faziam sem as facilidades de hj. É bem parecido com as coisas que vc postou. Meu filho ficou decepcionado de saber que as crianças viviam sem vídeo-game, pra falar a verdade ele não se interessou por esse programa pq disse que antigamente era tudo muito chato! Rsrs Mas o livrinho posso comprar pra ele ler, sendo que tem que ler 1 livro por mês! Bjo
    Gabi

    • Fernanda disse:

      Gabriela, sabe aquela frutinha laranja que é usada como decoração de doces nas festas de casamento? Ela se chama juá e antigamente as pessoas usavam a folha dela para escovar os dentes. Atualmente, em lojas naturais, existe o pó dental de juá. Além de fazer muuuita espuma, limpa muito bem os dentes e apesar de ser azedinho, deixa depois um sabor gostoso na boca, é questão de costume. Algumas pessoas misturam o pó com bicarbonato, mas isso não deve ser feito, pois este desgasta o esmalte do dente.

  2. JUCIMARA OLIVEIRA disse:

    JUCIMARA OLIVEIRA HOJE EM DIA TA TUDO MUDADO AS COISAS ESTAO MAIS FACIL.EU GOSTO DE COISAS ANTIGA DEMORAVA MAIS DE QUEBRA,DURAVAM MAIS.UMA COISA QUE ACHO ENGRACADO QUANDO FALTA ENERGIA O CEU FICA TAO CLARO DAR PARA VOCE ANDAR TRANQUILO.QUANDO EM CASA NAO VOCE LOGO TEM QUE ACENDER A LUZ POR QUE FICAR TUDO ESCURO VOCE NAO ENCHEGAR NADA COMO DEUS E MARAVILHOSO.

  3. Fabiane Alquimmin disse:

    AMEI VANESSA, VOU COMPRAR ESSE LIVRO!

  4. Laiza Eveline - Ceará disse:

    Olá Vanessa embora nem sempre comente , começarei a dar meus feedbacks ^^ a partir de agora.

    Gosto demais dos seus textos pois eles nos levam a pensar , são longos mas bem interessantes.
    Sempre leio os seus textos aqui e no Lampertop.

    É interessante esse Livro , gosto demais de coisas que me levem a pensar.

    Abraços , :D

  5. Maiara disse:

    Gostei da proposta de reflexão trazida pelo livro e seus comentários aguçaram ainda mais a curiosidade, rs, rs.
    Gosto muito de ler e espero, em breve, também poder “viajar” nas ‘terras do Como fazíamos sem’.

    Abraço,

  6. Maína Costa disse:

    Muito legal este post… as pessoas antigamente usavam muito mais o cérebro do que hoje, isso é um fato. Fazer contas sem calculadora na escola era normal, hoje em dia, se a pilha acaba nem sabemos mais somar direito. Fazíamos pesquisa lendo uma pilha de livros para escolher e editar aquilo que era importante e depois escrever a mão folhas e folhas de relatório. O Google tem nos feito seus reféns ao facilitar tanto a nossa vida e nos fazer pensar menos e copiar/colar mais.

    Abraços querida

  7. Joselene Lima disse:

    Não se dar conta do que está acontecendo ao redor ou fora de uma crença, tem muito a ver com mente cauterizada, onde a pessoa só acredita no que está vivendo, como se todo o restante estivesse errado. Infelizmente vejo muito disso dentro da IURD, o que tem me feito procurar cada vez mais analisar cada situação e ver as coisas sempre com bons olhos, como O Senhor Jesus nos orientou que fizéssemos.

  8. Jhullya Freires da Silva disse:

    Olá!
    A sra é muito boa nisso, realmente muito boa!! Tem aquela habilidade de ler e analisar tudo de uma forma muito Espiritual e quero desenvolver isso em mim mesma, mas acho que isso leva um tempo, kk. Eu sempre me perguntei como se faziam as coisas antes da revolução industria, amei a indicação e pretendo ler, e outra coisa que se nota também é que os brasileiros estão fazendo trabalhos muito bons, e alguns escrevem com uma qualidade que supera vários “best sellers” americanos, então vale a pena dar um crédito para eles. Gosto muito de ler, porém não tenho mais tempo, :( .
    Na fé,
    Jhullya Freires da Silva, MS.

  9. Juliana disse:

    Querida Vanessa.
    Que livro extraordinário…amei esse post, aliás amo todos, rsrs.
    Lembro de uma época q meus pais guardavam as carnes em latões com banha , pois morei no interior tbém, inclusive o telefone fixo chegou na casa dos meus pais tem uns 13anos.
    Obrigada por compartilhar conosco.:-)
    Bjinhos

  10. Ana disse:

    Com tanta tecnologia a nosso favor, e ainda tem gente que diz que não tem tempo…

  11. Amiga disse:

    Gostei mt do seu post, uma pequena aula de história rsrsrs vc me fez ter vontade de ler o livro. Além do mais sem essas tecnologias as pessoas conviviam umas com as outras bem melhor… sem falar nas conversas cara a cara e que hoje está escassa pelo fato de as conversas só serem pelos sms, Scape, Wattsap, facebook…
    Para mim uma boa conversa não deve apenas se resumir a uma tela de computador… tenho 17 anos e não gosto mt dessas conversas Não visuais. Beijos adorei

  12. Thaise Neiva disse:

    Quando vejo o seu texto Vanessa, sempre acho interessante. Bem extenso e explicativo, me identifico muito com tudo isso. Sempre coloco alguns dos meus textos na página da minha Iurd no Face, muitos gostam, mas quando o mesmo é extenso sempre escuto: Thaise, gosto muito do seu texto, porém, eles sempre são muito extensos, por isso da preguiça de lê. Fico muito triste quando escuto isso. Imagino que aconteça o mesmo com você (risos). Mas como você mesma se define: personal de neurônios sedentários. Vamos nos exercitar.

    Agora falando sobre o texto. Superinteressante!
    É sempre bom exercitamos a nossa curiosidade sobre algo que é normal hoje – impossível nos imaginar sem ele -, mas que em outro tempo não existia e as pessoas sabiam viver. E na maioria das vezes melhores do que nos dias de hoje. Muito Bom!

  13. Camille Lago disse:

    Eu penso igual a sua avó, mas em relação ao celular, como a gente viveu tanto tempo sem?! rsrs

  14. Carine Silva disse:

    Oi Vanessa querida

    amei seu post hoje….

    preciso ler este livro…
    nasci nos anos 80…. muita coisa de hoje não tinhamos, e conseguiamos fazer as coisas e eramos felizes sem elas….

    mais uma vez uma dica boa de leitura :)

    bjus minha flor

    Carine- Porto Alegre RS

  15. Elaine Santos Silva disse:

    Oi Vanessa, amo ler seus posts!!! Quando leio algo que você escreveu sem ainda saber que é você eu percebo que é você. Gosto da sua maneira de escrever.
    Bjus

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