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Para Sempre (The Vow)

18 Comentários

21/03/2012 | Por: | Postado em: Blog, Dicas, Livros

 ”Para Sempre” (“The Vow”, cujo filme foi resenhado aqui. Quis ler o livro para ver se mencionava o cristianismo, já que a Raphaela disse que o filme omitiu essa informação), é um livro biográfico, escrito em primeira pessoa por Kim Carpenter (o nome da esposa Krickitt está na capa, mas ela permanece muda por toda a narrativa). Li este livro na Livraria Cultura do Bourbon Shopping, aqui em São Paulo, que tem um V. Café com a melhor esfiha de ricota do mundo. Esfiha de ricota é amiga e uma grande incentivadora do hábito de leitura da pessoa que vos fala. :)

Pensei em comentar o quanto me identifiquei com algumas partes do livro: o início de meu relacionamento com meu marido foi bem semelhante. O casal do livro se conheceu por telefone e namorou à distância, eu e Davison nos conhecemos através do blog dele (eu era leitora e o admirava como escritor e cartunista, depois nos tornamos amigos) e parte do namoro foi à distância; nosso relacionamento é bem parecido com o descrito no início do livro: muita amizade, cumplicidade, afinidades e assuntos intermináveis em conversas sem fim. A diferença é que já existia internet em nosso tempo (não como hoje…não tinha Skype, mas tinha ICQ e Yahoo Messenger…só que quando meu microfone funcionava, o dele estava quebrado, e vice-versa). Não recomendo namoro pela internet como é hoje, as coisas estão um pouco diferentes…e sei que nossa história é uma exceção, assim como a deles…quantos casamentos felizes você conhece que começaram com uma tele-venda?

 Outro ponto da história é ver a pessoa amada em uma UTI. Passei por isso com um ano e meio de casada, Davison teve uma infecção generalizada e foi desenganado, mas acabou sendo salvo pela fé, como a protagonista do livro. Depois (spoilers por todo este parágrafo…sorry) ela perde a memória recente e tem de se readaptar à nova vida. Eu não tive nada tão drástico, mas por conta de um período de muito estresse, com o cortisol nas alturas 24 horas por dia, tive um comprometimento de memória e perdi várias lembranças importantes da minha vida, Davison precisou ter muita paciência. Consegui recuperar a maior parte das lembranças ao longo dos anos, mas por um bom tempo minha memória era um queijo suíço. Então, eu tinha tudo para gostar do livro. Amei a história, mas ela foi muito mal aproveitada. Poderia ter sido desenvolvida como um romance, mas ficou um relato extenso em primeira pessoa. Legal no começo, mas da metade para o final me desconcentrei algumas vezes. Esse formato distancia o leitor, que não se envolve tanto.

 Fica a sensação de que está faltando algo e você acaba recorrendo a pesquisas na internet (como a Raphaela fez quando viu o filme), mas isso é porque Kim não teve ajuda profissional para desenvolver a narrativa (que teria dado um belo romance…já disse isso?). A história de amor dos dois é linda, principalmente porque não se trata de sentimento, se eles fossem pela emoção, jamais teriam continuado juntos.  Kim permanece inconstante e emocional por grande parte do livro, mas dá para perceber o esforço dele crescendo ao longo da narrativa, lutando contra suas emoções para permanecer firme.

 Só me irritei com a tradução, desde o início. As notas do tradutor, no rodapé, não poderiam ser mais desnecessárias para a compreensão do texto. Se ele se preocupasse tanto em conhecer o universo do autor quanto em saber a geografia dos EUA e as distâncias entre as cidades, a maior parte dos problemas do livro estaria resolvida. Os dois são cristãos protestantes, mas a pessoa traduz “pray” por “rezar” e faz com que o casal pareça religioso católico. O autor fala da importância da fé na vida da moça, mas o leitor não consegue ver com clareza o real papel da fé na vida dela antes do acidente (da religião, sim, da fé, nem tanto). No final, ele diz que a história é sobre fé e você pensa: “mais ou menos, né?”

 Aí começam os problemas. Depois consegui encontrar o texto em inglês (o original, publicado por uma editora cristã, a B&H Publishing) e fiquei chocada ao compará-lo com a versão brasileira e ver o quão diferentes são. Além de ele ser melhor escrito no original do que em português, diversas partes foram totalmente modificadas, com o claro intuito de diminuir o apelo cristão do livro. Qual é o problema com o nosso país?  Veja um exemplo:

  ”You said I can ask you anything, so I must be honest, Kimmer. You know that I am a Christian. Being a Christian is having an ongoing intimate relationship with Jesus Christ. I guess what I have been wondering this whole time is if you were a Christian too – if you had made the decision to ask Christ into your life to pay the penalty of your sin, and give you eternal life like he has promised if we ask”

 Que poderia ser traduzido mais ou menos assim:

 ”Você disse que posso te perguntar qualquer coisa, então eu tenho que ser honesta, Kimmer. Você sabe que sou cristã. Ser  cristão é ter um relacionamento íntimo e contínuo com Jesus Cristo. Acho que o que eu queria saber esse tempo todo é se você também era cristão – se você tomou a decisão de pedir para Cristo entrar em sua vida, pagar por seu pecado e te dar a vida eterna, como ele prometeu que faria se pedíssemos.”

 Virou, nas mãos do tradutor:

 ”Você disse que posso perguntar qualquer coisa a você, então preciso ser honesta, Kimmer. Tenho muita fé, quero dizer, a fé e o cristianismo são importantes para mim. Não me vejo tendo um relacionamento de verdade com uma pessoa que não crê.”

 Do jeito que foi originalmente escrito, você entende como ela pensa, o que o cristianismo significa para ela. Da maneira como foi traduzido, você só entende que ela é uma religiosa. Uma coisa é dizer que o cristianismo é importante, outra coisa é mostrar como é importante. Nisso a tradução falhou bastante, descaracterizando o texto e a personagem. Talvez a ideia tenha sido atenuar a parte cristã para que o livro se tornasse mais comercial, mas isso não está certo. É um desrespeito também ao leitor, que quer saber como a história realmente aconteceu e não merece ser obrigado a ler uma versão censurada.

 Vi no relato de Kim Carpenter algo muito além de uma simples história de amor. “The Vow” é, sobretudo, um testemunho de fé e de fidelidade a Deus, um exemplo de fé racional, que está acima de qualquer sentimento: é uma decisão consciente (partindo do próprio título, que significa “O voto”. Eles só se mantiveram firmes por causa do voto que fizeram no altar, no dia do casamento). Outra coisa, senti falta do depoimento dela. Acredito que se tivessem feito um capítulo com a versão de Krickitt, seria mais interessante.

 Vale a leitura? Vale, o enredo tem um potencial enorme (pena que nem o livro, nem o filme conseguiram aproveitá-lo completamente), o narrador é simpático, é uma bela história de amor e superação. O problema é quando você descobre que não te permitiram ler o que o autor quis escrever de verdade (grrr…Vanessa brava). Isso me deixou revoltada. De resto, a história vale a pena, mas foi contada em um formato que não a favoreceu, poderia ter sido melhor.  Se decidir ler, não se esqueça de voltar aqui para dar a sua opinião! :)

PS: A editora da versão brasileira é a Novo Conceito, especializada em trazer grandes sucessos do exterior e publicá-los aqui. Sempre tem algum título deles na lista de mais vendidos.

Vanessa Lampert

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Vanessa Lampert

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Escritora e personal trainer de neurônios sedentários, em processo de formação de um exército de leitores inteligentes que saibam combinar senso crítico e bons olhos.


18 respostas para “Para Sempre (The Vow)”

  1. denise batista disse:

    é muito legal esse filme!

  2. Lohana disse:

    Eu li o livro e também acho que a historia poderia ter sido desenvolvida melhor, no começo me interessei, mas depois forcei me a continuar a ler para descubrir o final

    A personagem também me pareceu religiosa, e agora que descubri que foi a tardução estou revoltada kkk

    P.s: Suas resenhas são muito boas, que Deus continue lhe dando inspiração.

  3. Lúcia disse:

    Quando não gosto de um livro (ou filme) não consigo ir até o fim, simplesmente largo! É interessante ver como você parece acreditar que o livro pode melhorar antes de terminar, rsrsrsrs.
    Amei suas resenhas, já estou fazendo minha listinha para novas aquisições.
    Bjins

  4. Giselle Antunes disse:

    Oi Vanessa, quero deixar registrado que você tem me inspirado e muito.
    Sempre gostei de ler, porém sou meio preguiçosa. É como se, na minha mente eu já tivesse a informação cauterizada de que não tenho tempo para ler.
    Eu levo duas horas para chegar ao meu trabalho, antes perdia esse tempo dormindo e babando (eca), como o esgotamento é muito acabava até caindo muita das vezes em cima dos outros passageiros rsrsrsrs (é verdade um dia fiquei um bom tempo capotada no ombro de um senhor de uns 60 anos aproximadamente, que horror), mais agora eu leio, leio e leio, às vezes durmo, mais estou aproveitando melhor o meu tempo e me dedicado mais a leitura.

    Uma perguntinha: Para adquirir livros estou pensando em comprá-los no Sebo o que você acha?
    Um grande beijo
    Giselle

    • Giselle!!! Fiquei muuuuito feliz porque estou colaborando com a diminuição de passageiros “babantes” no transporte coletivo…hahahaha…. Não, sério, eu fico super feliz quando recebo comentários de pessoas que estão vencendo a preguiça de ler e vejo que esta coluna tem feito a diferença!! Seu cérebro agradece o exercício! E os idosos que sentam ao seu lado, também…rsrsrs…

      Olha, eu acho bacana ir a sebos (apesar de achar esse nome um tanto quanto “eca”…hahaha…prefiro dizer “loja de livros usados”…rs…), se a diferença no preço for significativa. E tem alguns livros, como “O Pacto”, que resenhei aqui, que a gente só encontra em sebos, porque estão fora de catálogo (não me conformo, não me conformo!).

      Tem um site que reúne diversos sebos de todo o Brasil, você pode comprar online, já comprei deles. É o http://www.estantevirtual.com.br já conhece? É claro que é sempre bom ir pessoalmente, folhear o livro, ver se é o que você quer. Mas às vezes a gente não acha pessoalmente, ou quer mais praticidade. Então fica a dica! :-)

      Beijos!

      PS: DUAS horas para chegar no trabalho? Você mora em São Paulo?….rsrsrs….

  5. Idelmária disse:

    Eu comprei o livro um pouco antes de ler a resenha, mas ele ficou para a próxima leitura depois do livro seguinte da lista :p (Mania de comprar antes de terminar de ler o primeiro livro)

    Depois que li sua resenha Vanessa, fiquei pensando em não ler para não me decepcionar rsrs mas resolvi ler, afinal paguei por ele, e é essa mesma sensação que de que está faltando alguma coisa que eu tive, ainda estou um pouco além da metade, mas segundo o que vi nas traduções do original eu fiquei pensando onde será que o “tradutor” se formou… Dá para perceber como é estrondosa a diferença.

    O principal motivo da história ser o que é, ter o resultado que teve é pela fé que eles tinham em Deus, mas não da forma como foi registrada pela Novo Conceito… triste!

    Vou comprá-lo em inglês e me esforçar para traduzir rs
    Beijoss

  6. Tati Acioli disse:

    Olá dna Vanessa, é um absurdo o que a indústria de filmes, livros… faz para nos influenciar e lucrar “rios” de dinheiro!!!
    Temos que esta sempre ‘alerta”.
    Lendo seu post vi também o quanto é necessário conhecermos outras línguas. Eu procuro sempre que posso, ler notícias , blogs em inglês e ver filmes com som original. Assim é mais difícil o mercado e o comécio”(o mundão) nos influenciar.
    p.s; eu também adoro ler!!!! nos transportamos….muito bom

    • Tati, conhecimento é poder. Informação é poder. Se o poder está nas mãos dos outros, se temos que comer na mão do mercado, da televisão, de outras pessoas, é mais fácil sermos vítimas de manipulação. Por isso, quanto mais você conseguir aprender algo que te dê independência na hora de se informar e que te ajude a formar suas próprias opiniões, como entender inglês e aprimorar a leitura em português e o pensamento crítico, melhor.

      Volte sempre!

      Beijos!

  7. Maura Olivera disse:

    Hola Sra, bueno, leí sus artículos, y me parece que en Argentina no he visto aún ninguno de esos libros… Soy más de la literatura clásica yo =)
    En cuanto a las traducciones, concuerdo con la Sra, los traductores parece que agarran tijeras de podar para hacer su trabajo en los textos. Por eso, desde hace una tiempo largo, procuro leer los libros en su idioma original, en la medida de lo posible.
    Obrigada Sra, me gusta mucho esta sección!

    Saludos,

    M. Olivera

    • Oi, Maura! Também gosto dos clássicos, mas optei por colocar mais entretenimento contemporâneo por aqui porque eles têm uma linguagem de melhor compreensão a quem ainda está adquirindo o hábito (quero formar mais viciados em livros…hahahaha…). Não que estes que eu postei sejam livros fáceis e superficiais, mas simplesmente pelo fato do estilo ser mais atualizado, aproxima o leitor. Mas passearemos por todos os gêneros, épocas e estilos nesta seção, não fique triste. :-)

      É tudo questão de hábito. Eu, por exemplo, era super seletiva com ficção. Depois fui obrigada a ler coisas que eu não gostava, literatura de consumo mesmo, como Nora Roberts e chick lit. Aprendi a olhar com outros olhos. Eu gosto de analisar a forma de escrever. Cada época tem seu estilo, e se eu quero escrever para os meus contemporâneos, tenho que me inteirar do que está se escrevendo agora. São ossos do ofício. :-)

      E eu também prefiro ler no original, tenho a mesma impressão que você em relação a tradutores. Pelo visto tradutores mãos de tesoura não são exclusividade do Brasil.

      Beijos!

  8. Lívia disse:

    Fiquei muito feliz em saber que teremos dicas sobre livros aqui no blog.Desde quando eu tinha onze anos de idade (hoje tenho vinte e cinco) tenho o hábito de ler.Toda semana eu ia na biblioteca da escola e pegava um livro e viajava.Fazer redação não era difícil para mim,quando eu começava a escrever,não parava mais!Ler é muito importante,como você explicou Vanessa.Sempre estarei aqui para ler suas dicas.Obrigada!

    • Oi, Livia! Seja bem-vinda :-) Eu também era ratinha de biblioteca da escola e redação era minha matéria favorita, a única em que eu conseguia tirar dez sem precisar estudar…hahaha…

      Apareça sempre por aqui, se você é como eu, vai gostar das resenhas e se interessar por vários livros legais que colocarei por aqui.

      Beijos!

  9. Sarah disse:

    Olááá, gostei demais! Já tinha visto esse livro nas prateleiras mas sabe que eu não cheguei a pegá-lo, então, imaginei que fosse mais uma dessas historinhas que toda adolescente gosta de ler sobre um rapaz e uma moça apaixonadérrimos e todas aquelas loucuras joviais.
    Devo admitir que foi por causa da capa.Sim, eu julguei um livro pela capa.Confesso.
    Nunca que eu imaginei que fosse esse o enredo.Eu vi na internet as pessoas falando que era do Nickolas Sparks, só pra ver q eu não fui a única que pensou “em mais um romancezinho”.
    A capa original não é “comercial” haha mas é compatível com o conteúdo não acha?
    Essa capa não “orno”, haha pelo menos pra mim. =)

    • Sarah, se você julgou esse livro pela capa, então vai amar o Amor de Redenção, que eu resenhei hoje…risos…a capa é deslumbrante!

      Eu sempre fico meio indignada quando vejo uma boa história ser mal aproveitada. As boas histórias, que trazem mensagens positivas, são tão raras hoje em dia! As editoras tinham de tratá-las como preciosidades!

      Beijos!

  10. Thais Toledo disse:

    Pois é Vanessa.. Reparei nisso mesmo.. O livro acaba sendo um grande relato e até onde cheguei (mais ou menos na metade) não é lá essas coisas. Sinto falta do depoimento dela, sinto falta de uma narrativa aprimorada, mas sinto realmente falta do que você disse em relação ao original, da fé, da entrega a Cristo.
    Fiz o caminho inverso, antes de comprar o livro e ver o filme (que desisti após o relato da dn Rafaela) li entrevistas e nelas é possível notar que de fato o Senhor Jesus é parte importante da vida, da história e da motivação do casal. E no livro isso parece superficial e religioso.
    Só que tem e conhece ao Senhor sabe que Ele não é apenas uma escolha religiosa, uma parte da sua vida como a profissão, a família, os amigos e etc. Ele é tudo em sua vida. É Ele quem guia e proporciona tudo que se tem, se é e se aprende. Tudo vem Dele e é para Ele.
    Na visão do livro ela é apenas alguém de muita fé. Mas o que é isso? Quantas pessoas de muita fé não sabem usa-la por não conhecerem de fato o autor da fé? Inúmeras!
    Se tivesse lido antes teria comprado a versão em inglês. Mas agora é terminar e lembrar do que você disso.
    Amei o texto!! Como sempre!!
    Bjinhos querida

    • Thais, tenho uma boa notícia!

      Escrevi para a B&H Publishing contando a tradução que a editora brasileira cometeu. Eles me responderam dizendo que já entraram em contato com o agente brasileiro e vão tomar providências. Agradeceram, pois não sabiam do ocorrido e são cristãos, sabem da importância dessas informações.Primeiro mundo é outra coisa…

      Aqui no Brasil, escrevi para a editora que publicou O Pacto, para saber por que não está mais em catálogo e até agora não recebi resposta.

      No mais, concordo 100% contigo. Só quem conhece a Deus sabe que ele é parte indissociável da nossa vida. Não tem como “superficializar” isso.

      Muito obrigada pelo seu comentário, apareça!

      Beijos!

  11. Patrícia Scarabellot disse:

    Muito bom Vanessa …obrigado pela dica!
    amei!! suas histórias são demais, o jeito que você escreve então..
    :-)
    Beijinhos …Deus te abençõe!

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